Em Busca da Essência Divina [Conto TRPG]


Em Busca da Essência Divina

IntroduçãoCante, ó bardo !

Era uma busca egoísta, isso ninguem contestava. O que nos atraía era o simples fato da recompensa. Para Trevis Littlesing, a maior recompensa era presenciar os atos daquele memorável grupo de aventureiros. Incomuns ? Com certeza.

Todo o grupo girava em torno de um só objetivo, e mesmo que não fizesse parte de seus objetivos pessoais, essa meta em comum sempre tinha mais importância. A meta de Phagor.

Phagor, era o líder. Aprendeu desde pequeno as disciplinas e condutas dos paladinos de Khalmyr, e depois de longos anos veio se tornar um cavaleiro. Porém, Phagor morreu pelas garras de um dragão vermelho muito poderoso, e não aceitando sua morte precoce, resolveu forçar a sua estadia no plano físico. A partir daquele momento ele se tornara um cavaleiro da morte, que não descansaria enquanto não destruisse o dragão que lhe havia arrancado a vida.

Phagor caminhou solitário por uma grande extensão de Arton. Não há como dizer o quanto andou e nem por onde andou, o fato é que naquele momento estava frente a frente com um destino cruel: A quebra dos dogmas interiores, a perda gradativa de sua humanidade.

A Ordem Puritana da Justiça, facção que crê na total pureza dos paladinos de Khalmyr, foi a mãe que gerou Phagor, e adentrar um recinto de bebidas e prostituição era a primeira regra que não deveria ser quebrada, e nunca havia sido quebrada até aquele momento. Phagor, em sua forma pálida e morta, adentrou a taverna Galo de Tenebra. O cheiro de bebida e promiscuidade era tão forte, que seus olhos, outrora mortos, lacrimejaram. Entrou vagarosamente no local e procurou sentar-se sozinho, em vão. O local estava cheio e só havia uma mesa menos ocupada, sendo utilizada apenas por um garoto que aparentava ser um bardo. Caminhou lentamente até a mesa do jovem, abrindo caminho no meio de tantos homens embriagados, e ao chegar na mesa, sentou-se lentamente ao lado oposto ao jovem.

– Posso me sentar aqui, jovem bardo ? – Sua voz rouca e morta parecia tornar o local mais frio, tenebroso.

– Mas é claro, sem nenhum problema, meu senhor. – O jovem parecia estar amedrontado. A aparencia de Phagor era de colocar medo em qualquer um, e com o jovem bardo não foi diferente.

– Senhor ? Não, estou longe de ser um lorde. – Disse ele abaixando a cabeça. Phagor aparentava ser alguém amargurado e de dar pena.

– Meu nome é Trevis Littlesing, um aspirante a bardo. – O jovem bardo estendia a mão direita para cumprimentá-lo. Contato físico amistoso, uma barreira grande depois de tantos anos. Phagor estendeu sua mão lentamente, talvez com receio de tocar o jovem rapaz, com medo de contaminá-lo com seu ódio e rancor. Porém, as mãos se encontraram e nada ocorreu além de uma apresentação formal.

– Meu nome… É Phagor. Phagor Mealtdown IV. – Phagor fechou o semblante quando falou seu sobrenome, parecia que estava contando uma mentira, que não era mais aquilo que falava. Sentiu-se sujo. Em sua mente algo lhe dizia que a segunda regra da Ordem Puritana da Justiça havia sido quebrada: Um cavaleiro NUNCA mente.

– Um nome digno de um lorde, devo dizer. – O jovem bardo já havia visto muitas coisas naquela taverna, porém um lorde que recusava ser reconhecido como tal era a primeira vez. Nem mesmo havia terminado sua análise mental sobre Phagor e um puxão lhe arrancou da mesa.

– Seu bardo de araque ! Toque alguma coisa para que essa taberna não exploda ! – Era o taberneiro, gordo e sujo como só ele poderia. O jovem bardo cambaleou tonto por causa do puxão e foi se direcionando a uma parte mais alta do local. Phagor pensou em levantar e defendê-lo, mas não era mais o seu dever. E a terceira regra da Ordem Puritana da Justiça havia sido quebrada: Sempre proteger alguém indefeso das garras do monstro da violência.

O jovem começou a dedilhar o seu pequeno bandolim, que segundo as lendas locais, lhe fora dado pelo o próprio Luigi Sortudo quando o mesmo passou pelo vilarejo. As notas eram doces e perfeitas, e traziam paz a cada coração daquele local, até mesmo ao coração de Phagor.

“Quando a morte parece certeza, e a dor insiste em matar aos poucos

Quando o ar se torna riqueza, e quando o amor se vai sem falar.

Quando as garras dos lobos lhe rasgam, quando o frio uivante lhe aplacar

Quando a luz se apagar e a lua não brilhar, sinto muito mas morto estará.

Talvez nem mesmo eu possa escapar, minha música um dia vai parar.

E quando o sol não der calor, e nem a brisa o seu frescor, é um sinal de que a vida acabou.

Nem mar, nem dor, nem sol, nem amor, nem brisa, nem frio, nem cobertor.

Não há portas, nem saídas, nem ao menos despedidas, somente a alma cálida em torpor.

E todo peso na balança do grande juiz, traz a tristeza eterna ou o final feliz.”

A taberna era só silêncio. Os olhos de Phagor se encheram de lágrimas novamente, desta vez por ouvir aquela maravilhosa melodia, que contava em pequenas rimas a sua vida e não-vida. O taberneiro aplaudiu com suas mãos grossas e rudes e logo toda a taberna entrou em delírio, aplaudindo de pé o jovem Trevis Littlesing. O clima tornou-se mais calmo no Galo de Tenebra, as pessoas conversavam mais educadamente, até os limites que lhes eram permitido, e o taberneiro feliz pagou o jovem rapaz.

– Gostou da canção, Phagor ? – O jovem bardo não compreendia as lágrimas no rosto daquele cavaleiro de imponência tão grande.

– Sua música é verdadeira, sem mentiras. Um diferencial entre os bardos. – Phagor tentava se recompor, porém os versos não lhe saiam da mente.

– Obrigado. Aprendi muito vivendo nas ruas. – O rapaz sorriu orgulhoso, enquanto dentro de si a dor daquelas palavras já não surtiam tanto efeito.

Antes que qualquer outra palavra fosse dita as velas da taberna se apagaram. Um vento frio e cortante adentrou o local acompanhado de um espesso nevoeiro incomum, como a morte em estado físico. Antes de qualquer um, Phagor conseguiu sentir e identificar aquela presença que não era única, eram várias ao mesmo tempo.

– Esqueletos Reanimados. – Sussurrou para si mesmo, enquanto sua mão foi até a sua espada, outrora abençoada, hoje amaldiçoada. A fumaça era tão espessa que não permitia as pessoas comuns verem com clareza em seu interior,nem saber o que estava acontecendo naquele momento, mas Phagor estava vendo com nitidez. E então o mistério terminou…

– Cidadãos de Junntuar, preparem-se para morrer ! – Dizia uma voz estridente que soava de dentro da fumaça, que naquele momento ia se findando até revelar a tropa de esqueletos que havia invadido a taberna. Muitos entraram em pânico. Correria, confusão, dor e morte, tudo reunido em um só lugar. O jovem bardo ameaçou correr na vã tentativa de fugir, porém Phagor o impediu.

– Permaneça atrás de mim, aconteça o que acontecer, entendeu ? – O cavaleiro da morte nem ao menos olhou o rosto do bardo, mas pode sentir o medo lhe subir à garganta e exalar em forma de suspiro. – Criaturas das trevas, partam de volta ao seu descanso e deixe o povo desta cidade em paz. – A voz rouca e embargada de Phagor soou sobre toda a taberna, levando os mortos-vivos a perceberem a sua presença.

– Quem és tu para nos dizer o que fazer, pobre mort… – As palavras findaram-se nos maxilares ósseos do esqueleto que aparentava ser o líder antes mesmo de se concluirem. Ele inclinou sua cabeça levemente enquanto observava o cavaleiro das trevas e como num estalo pareceu reconhecer o antigo cavaleiro. – Ora, ora, ora… Se não é o Phagor, o Renegado da Morte. Aquele que se agarrou no ultimo e tênue fio de vida que lhe restava, e pôs-se a caminhar sobre Arton sem destino algum. – O esqueleto chegava a ser repugnante. Enquanto falava, partes de seu crânio de desprendiam e caiam ao chão, assim como dentes e ossos do crânio. – Sua fama está correndo pelos ventos da morte, Cavaleiro de Khalmyr. – A voz do esqueleto parecia ecoar finamente dentro da taberna, e o frio se tornava maior a cada palavra da tal criatura. O jovem bardo assustava-se a cada frase dita. Primeiro depara-se com uma invasão de mortos-vivos na taberna em que toca, depois descobre que seu companheiro de mesa é um morto-vivo também, e ainda por cima um antigo Cavaleiro de Khalmyr. Nem se quisesse conseguiria se mover, o medo vinha de ambos os lados.

– Não estou atrás de fama e muito menos sem destino. Tudo o que peço é que partam desta cidade e retornem ao seu descanso eterno. – A mão de Phagor começava a apertar o cabo da espada, enquanto seus olhos ganhavam levemente um brilho rubro e doentio.

– Você não tem o direito de pedir NADA ! – Dizia o esqueleto esticando o braço direito em sua direção, ordenando que um de seus lacaios atacasse o cavaleiro da morte. Tão rápido quanto o ataque, foi o contra-ataque de Phagor. Sua mão, antes presa firmemente à espada, agora encontrava-se afundada sobre o crânio do lacaio, fazendo a carcaça óssea se esfarelar sobre o chão.

– Deixem este local em paz. – Voltou a mão até o cabo da espada. O líder dos esqueletos soltou um estridente grito, ordenando o ataque imediato ao cavaleiro morto. E, como em um frenesi, todos os outros partiram ao ataque.

A cena foi rápida. O jovem bardo sumiu, tornando-se invisível involuntariamente. Uma flecha rompeu o ar, acertando um dos esqueletos mais próximos do cavaleiro; três outros pereceram com um círculo de fogo que fora conjurado abaixo de seus pés ósseos descalços. Três adagas acertaram o crânio de um único desmorto, e a mão de Phagor, em um único ataque desmontou cinco esqueletos. A face pasma e pálida do líder dos mortos-vivos aparentava rachar em certas partes, resultado do ódio imediato que lhe ocorreu. Ainda havia meia dúzia de seus servos dentro da taberna, e era com isso que ele contava.

– Então temos um grupo de aventureiros… – Sua voz saiu debochada. Uma flecha silvou no ar e parou frente ao esqueleto, transformando-se em pó rapidamente. – Já que estão se sentindo tão “vivos”, vamos brincar um pouco… – Novamente o frio. E todos os seis esqueletos que restavam caíram, desmanchando-se em poeira. O esqueleto líder sibilava palavras mágicas, enquanto do pó de ossos emergia uma figura assustadora. Seu corpo era humanoide e bruto, e ao invés de pele, sobre o corpo havia espinhos de variados tamanhos. Seu rosto era protegido por um elmo que lhe fincava a carne, e de suas mãos, ferro na forma de fio.

– Contemplem a glória dos esquecidos, e pereçam por suas mãos sangrentas ! MATE-OS! – A voz estridente novamente, e a ação rápida do monstro conjurado. Antes que todos os envolvidos pudessem perceber, o local estava em chamas e o conjurado rodava seu chicote de ferro na intenção de matar.

– Mervilan, tente paralisá-lo. Sirius, ataque inferior. Miscely, saia daqui com o garoto, e Cavaleiro de Khalmyr, mostre-nos do que é capaz. – Disse a arqueira.

– Sim, Elionnore. – Disseram todos em uníssono, tomando suas novas posições, enquanto Phagor segurava firmemente o cabo de sua espada.

Mervilan levantou seu cajado e pronunciou rapidamente algumas palavras em um idioma desconhecido, e tão rápido quanto suas palavras, o efeito se fez presente. O chão abaixo do conjurado começou a ceder, e suas pernas foram afundando rapidamente até que o solo se tornou sólido novamente, e ele ficara preso. Sirius tirou das botas que usava dois punhais e os lançou no abdômem da criatura conjurada, mas ela não transpareceu sentir dor com aquilo. Antes que eles pudessem perceber, quatro flechas cruzaram o salão em direção ao monstro e o acertaram em cheio na cabeça.

– Cavaleiro, é a sua vez! – Gritou Elionnore, enquanto preparava mais três flechas. Phagor nem ao menos se mexeu, e o barulho de sua espada sendo guardada na bainha fora ouvido. Sangue, carne e fogo, e desta vez o monstro urrara.

– Vocês viram isso ?! Ele nem ao menos se mexeu! – Disse Sirius com mais dois punhais preparados para lançar.

– Não podemos perder tempo, agora é a vez do esqueleto sentir dor! – Disse Elionnore lançando três flechas sobre o líder dos esqueletos.

– Elfa tola… – Disse ele confiante em seu escudo mágico.

– Cancelatum Magicius ! – Gritou Mervilan lançando sobre o esqueleto uma rajada mágica que quebrara o seu bloqueio, fazendo com que as flechas ultrapassassem o escudo. Todas as três flechas acertaram a carcaça podre do esqueleto, que gritou de dor.

– Malditos sejam vocês ! Acreditem, vou segui-los até o dia em que o vosso sangue escorrer por entre meus dedos, perdendo calor a cada segundo ! – A voz do esqueleto tornava-se distorcida, assim como as coisas mais próximas dele naquele momento, e em seu ultimo fôlego naquele lugar, ele fez a proeza de pular sobre o monstro que havia conjurado, sumindo instantaneamente junto a ele.

– Uma magia de teleporte. Típico. – Mervilan sorriu, seguida pelo os outros, exceto Elionnore. Seu semblante era sério e pensativo.

– Lembrem-se, temos mais um inimigo declarado agora. Devemos ter cautela. – A superioridade que ela exalava não era pedante, nem mesmo arrogante, era simples coerência e sabedoria. – Cavaleiro, qual é o seu nome ? – A elfa dirigiu-se respeitosamente a Phagor, admirando seu nivel em batalha.

– Chamo-me Phagor. – Largou o cabo da espada. Seus olhos voltaram à opacidade anormal da morte e neste exato momento sondou em volta, preocupou-se com Trevis.

– Prazer em conhecê-lo, me chamo Elionnore. – Uma reverência com a cabeça, respeito élfico.

– Eu sou Sirius Fasthand. – Disse, enquanto recolhia os punhais que havia lançado por toda a taberna.

– Eu me chamo Mervilan Louggio, dos Louggio de Deheon. – Acenou com o cajado, um típico cumprimento dos magos.

– E eu sou Miscely. – A voz que vinha do vazio logo se mostrou, juntamente a figura de Trevis, que estava numa mistura de amedrontado com maravilhado. – Eu usei a minha capa mágica para ocultar o seu companheiro. – O sorriso mais lindo que Phagor havia visto em toda a sua existência havia acabado de se abrir, na sua frente.

– Não… Er… Ele não é meu parceiro, eu o conheci hoje e… – O cavaleiro ficou sem palavras, não havia mais o que dizer. – Obrigado.

– Não agradeça, Cavaleiro. – A voz firme da elfa rompeu o clima dentro do salão. – Fazemos o que é certo, e sempre ajudamos alguém que precisa, e eu vejo no seu rosto que você precisa de ajuda. – Cruzou os braços e sentou-se sobre uma das mesas que não estava destruida.

– Eu não sei no que vocês podem me ajudar, e creio não precisar de ajuda. – Seu coração apertou tão forte, e sua cabeça começou a rodar de uma maneira louca e insandecida. Era a mentira.

– Você está bem ? – Miscely correu em direção ao Cavaleiro, apoiando-o sobre seus obros delicados e pequenos. Sua dor logo findou-se.

– Sim, estou bem. – A voz rouca soou baixa.

– Bem, se é assim, vamos descansar essa noite e nos encontramos aqui amanhã de manhã, certo ? – Disse em tom autoritário a elfa.

– Que seja… – O cavaleiro concordou.

– Eu… Eu não tenho para onde ir… – Trevis sussurrou.

– Dormirá conosco hoje, e espero que amanhã já tenha uma boa canção para o que houve hoje, hein? – Elionnore tentou ser mais amistosa, porém ainda assustava.

Todos foram para seus quartos, menos Phagor, que caminhou pelo vilarejo de Junntuar até que o sol desse seu primeiro beijo no horizonte. Aquele dia seria diferente de todos os outros.

—–

Este é um conto sobre Tormenta RPG escrito por mim, Pedro “Kally” Maia e revisado por Lorde Dornelles (Muito obrigado !).

Espero comentários, e peço que aguardem pelo o capítulo 1 da história.

Podem saber de mais detalhes seguindo a tag #EBED no twitter.

Poder à Todos.

Anúncios

About Pedro Maia

Escritor, magista, RPGista e empreendedor. Líder do Clã de Magia Tradicional Blackmoon, escritor da série de poemas chamada "Pensamentos Compulsivos".

Posted on 18 de Outubro de 2011, in Conto Oficial TdV and tagged , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: