Minha personalidade é o que eu faço


Todos que já conhecem o ritmo desse blog sabem que as sextas feiras eu costumo escrever um post sobre o jogo de RPG. Sem necessariamente me ater a regras ou adaptações para personagens. Faço isso por que o RPG é algo um pouco maior que um jogo normal, parte dele é regra, parte dele não. Mas onde especificamente fica o meio termo?

Eu Vôo. E você? - Aquaman

Semana passada estava jogando com meu grupo, a aventura descrevia uma pequena e bucólica cidade no interior onde um representante de uma organização de caça a monstros havia desaparecido, e o objetivo era encontrá-lo e, caso estivesse já morto, cremá-lo evitando que se erguesse como um morto-vivo ou outro monstro qualquer.

A missão degringolou no primeiro minuto do jogo quando o jogador que estava com o mago resolveu tacar fogo na cidade inteira, desta forma garantido que o caçador estivesse morto e cremado concluindo a missão e saindo dali.

Eu, claro, não tive que mover uma única palha pra acertar a situação, os jogadores impediram a insanidade do personagem de queimar a cidade.  E a aventura prosseguiu, mas eventualmente esse jogador abusava de suas habilidades para tentar terminar muito facilmente as dificuldades do jogo. E com margem mínima de sucesso já que as dificuldades, nesse caso especifico, estavam associadas a situação, que ele não interagiu.

“Pra que cérebro? Eu sou treinado em Sobrevivência!” – Palavras de um Paladino Anônimo.

Especialistas Burros, você vê por aqui.

Em retrocesso eu até entendi qual o verdadeiro problema do jogo, eu estava jogado uma aventura de terror que apenas eu sabia ser terror moral, para os outros era um jogo de heroísmo. Para o mago especificamente era um jogo de “olha, construi minha ficha melhor que vocês.”

Sendo justo o jogador estava no direito dele de usar seus muitos poderes (e quase nenhum outro traço) na vã esperança de resolver a situação, mas em determinado momento os jogadores perceberam que nenhuma jogada de dados iria encaixar as peças na frente deles.

Essa frase que abre essa sessão foi retirada de um jogo de D&D4ed. Pra quem não conhece o conceito do Desafio de Pericia ele basicamente é um combate sem combate para você obter um numero X de sucessos antes de três falhas, tão logo o faça você é resolveu o problema, o mesmo que um combate normal (especulando que suas armas tenham um dano médio os PVs do monstro apenas determinam quantas vocês você vai bater nele antes dele cair), o que acontece é que essencialmente a cada jogada bem aplicada de pericia deveria acontecer o que acontece em um combate, uma rápida descrição de como você fez algo que ajudou no desafio geral passando para a próxima rodada. Foi em uma dessas que seu essa pequena pérola. Um paladino não tinha idéia do que fazer pra encontrar as pistas que levariam ao assassino do arque duque, mas rolou sozinho todos os testes de pericia exigidos para o encontro. Conclusão, ele passou do desafio e não sabemos até agora o que ele fez.

Isso gerou um evento conhecido aqui como especialista burro. É o cara que não tem a menor idéia do que está fazendo, não consegue passar segurança em suas palavras e termos e não tem nenhuma capacidade pra falar com ninguem, as sempre vai na frente pra poder rolar os dados.

Aqui aconteceu algo semelhante. O jogador resolveu fazer dos dados a defesa máxima contra a campanha. Sem qualquer interpretação (ou quase isso, já que ele passou a aventura dizendo que era preguiçoso e sempre tomava o caminho mais fácil) ele tentava se resguardar de não ser bom de interpretação com números matemáticos e formulas para se preparar.

E não posso dizer que não estava certo.

F(x) = X³-x²+3y – 9

Planilha de cálculo

Eu disse que eu sei como fazer um bastão de alimentação nuclear movido a Prutônio.

Segundo o que prega nossa filosofia de jogo, ninguém é obrigado a fazer de seu personagem de RPG um espelho fiel de si mesmo. Tanto é verdade que não é incomum que eu, mesmo sendo um ateu assumido sempre prefira jogar como clérigo, já que sou naturalmente desapegado de elementos imateriais posso facilmente emular qualquer tipo de religião.

Mas por conta disso qualquer que seja o sistema me previne a deixar alguns detalhes para a capacidade do personagem no automático. Afinal eu não sou versado em metalurgia e forja, enquanto meu clérigo do deus dos ferreiros provavelmente será. Usando um exemplo mais claro, seria um personagem hacker de um usuário comum de um PC.  O abismo de habilidade entre eles invalida a própria construção do mesmo.

Agora embora isso seja um apoio não deveria ser um sofá de conforto para o jogador. Quando a informação numérica supera o valor do jogador ele simplesmente ancora.

Ancora = Ficar Ancorado; Âncora = Objeto Náutico.

Eu vou abrir a real, o tipo de jogador que o mestre mais odeia é o advogado de regra. É o cara que exatamente por saber como as regras o protege ignora até a presença do Mestre. Se no livro X, pagina Y, coluna Z2 diz que uma coisa é assim é assim que a coisa é.

 Muita gente diz que a regra de ouro basicamente valida qualquer ação do mestre, outros dizem que é exatamente o contrario, que é ela que permite ao jogador fazer certas coisas. Por exemplo, um jogador gasta lá seus pontos para poder voar, e o mestre considera um poder abusivo ele manda tirar o poder e o jogador que se contente em saber que não pode voar.

As regras permitiriam ao jogador poder jogar.

Típico de qualquer RPG.

Bom, nem tanto ao céu nem tanto ao mar. Eu acredito no bom senso das pessoas, que ninguém vai ser tão sem noção assim, mas caso aconteça faça como eu fiz. O personagem era preguiçoso, não o convide pro próximo jogo (o jogador é convidado a participar) e assim ele não se junta ao grupo contra a vontade.

Quando o jogador vier reclamar que ele quer participar diga que assim é melhor, o personagem dele muito pouco capaz para ser aventureiro e entregue uma ficha nova pra ele. Assim ele participa como alguém mais pró-ativo.

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About Serial101

Engenheiro, RPGista, Fã de Quadrinhos, é fã do sistema M&M, e quer fazer um jogo sobre Robôs. Alias quer fazer um exército de robôs só pra tirar uma foto junto. Sonha em um dia dominar o mundo, mas está esperando o gloogle terminar de controlar as mentes das pessoas antes.

Posted on 23 de Setembro de 2011, in Artigos and tagged . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. Jogar com interpretação às vezes gera esse tipo de trava. Os personagens precisam resolver um desafio de charadas? Tudo bem, o mago do grupo tem inteligência 18, e o ladino 16. Mas os jogadores NUNCA foram bons de charadas. E se a resposta for algo muito difícil, fica MUITO estranho o jogador nerd ou advogado de regras, que come todos os livros, saber que a resposta é o nome de um lêmure celestial que vive no bosque sagrado do Paraíso Infinito, quando o dito jogador está jogando como um meio-orc bárbaro de inteligência 6.

    Se for investigar, às vezes é frustrante esperar que os jogadores interpretem e tenham uma boa idéia pra achar uma pista. Por isso a rolagem de dados pode facilitar. Mas não acho que ela simplesmente deva ser usada como solução universal. Senão fica muito fácil dizer que vai procurar genericamente alguma coisa e dizer que rolou um 20 natural, portanto, você ACHOU OBRIGATORIAMENTE algo, sem sequer saber o que tinha ido fazer.

    Quer usar seus poderes? Tudo bem, mas lembre-se que quem causa danos aos outros tem que pagar por eles, e pode ser caçado por isso. Você pode passar o dia todo destruindo coisas com Explosões, Rochas Cadentes, Tempestades da Vingança ou Tornados, mas quando você destrói algo que não deveria, não quer dizer que você se safa só por ser poderoso.

    Só é complicado achar um ponto de equilíbrio, porque isso depende da colaboração dos jogadores. Conheço um jogador que considera os livros tabuletas sagradas. Se não é material oficial, não pode ser usado. Mesmo que a idéia seja boa. Regra de ouro o escambau, cada um permite o que quiser, desde que saiba lidar com os resultados.

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